"Uma dose de Whisky e uma carteira de black por favor.
Eu quero apenas sentar nesse balcão de bar e relembrar um pouco dos momentos esquecidos que já tive. Agora, estou usando shorts e as marcas da minha última depressão são evidentes e confesso que até chamativas, coisa que jamais desejei que fossem. É… essa não é uma das minhas melhores recordações, lembro dos motivos pelo qual elas estão aqui e me vem um nó na garganta que insiste em se desfazer em lágrimas, mas não vou chorar, não aqui, não agora. A quanto tempo eu não sentia o gosto de um saboroso Whisky 12 anos e a ardência de um bom cigarro, eu havia parado, por sua causa lembra? Você sempre reclamava, não gostava desses meus vícios e dizia estar pensando no que era melhor pra minha saúde, desculpa mas hoje não me importo mais com isso. Eu já ia pedir mais uma dose quando um garoto chegou e se sentou ao meu lado, a principio nem reparei muito nele, a timidez me impediu de olhá-lo. Então ele se debruçou sobre o balcão tentando se aproximar de mim e perguntou:
— Posso pagar a próxima?
— Não é necessário. - eu disse ainda cabisbaixa
— Eu insisto. - disse ele e logo pediu o mesmo que eu.
A presença dele me deixou desconfortada, eu já nem sabia mais no que estava pensando, queria sair dali.
— Posso? - disse ele pegando a carteira de cigarros que estava sobre o balcão.
— Claro. - ok, esse garoto era perfeito demais para existir, pensei.
— E seu nome é? - ele perguntou e então acendeu o cigarro.
— Caroline. - respondi ainda muito tímida.
— Prazer, Lucas. - e me deu a mão.
Eu estiquei a mão, indo de encontro com a dele, então ele a segurou e a beijou. Ao levantar foi quando finalmente o olhei nos olhos, aqueles olhos verdes e hipnotizantes que pareciam enxergar minha alma e puxar-me pra perto dele. Fiquei parada, por alguns segundos, apenas admirando, depois fui reparando no resto de seu rosto e tenho que falar, poucas vezes vi garoto tão lindo como esse. Acho que ele reparou que eu não desviava o olhar dele, acho não, tenho certeza, foi quando ele deu um sorriso de canto de lábio e perguntou:
— O que foi?
— Nada, eu estava apenas… olhando.
— Haha, e gostou do que viu?
— Talvez.
— Eu sim.
— Você sim, o que?
— Eu sim gostei do que vi, poucas vezes vi garotas tão lindas quanto você.
Travei, foi o mesmo que eu havia pensado a respeito dele. Nem reparei que já estava vermelha de vergonha, mas ele sim, ele sim reparou e como se não bastasse ainda tinha que comentar algo.
— Não fique tímida garota, apenas disse a verdade a você.
— Então, obrigada (?)
— Não por isso.
Então reparei que as marcas em minha perna ainda estavam a mostra, rapidamente tentei puxar o short com a finalidade de escondê-las mas foi em vão. Ele havia visto, por um instante me encarou, foi quando ele esticou o braço direito e no seu pulso, sob uma tatuagem ainda não acabada ele possuía marcas “horríveis”, tanto quanto as minhas, ou até pior. Foi então que ele perguntou:
— Por que as quis esconder?
— Vergonha de eu mesma tê-las causado.
— Entendo, no início eu também me sentia assim, hoje, me sinto um guerreiro por saber que passei por tudo e hoje estou aqui, vivo, pra contar história. Também deveria se sentir assim, és uma guerreira pequena.
— Nunca pensei por esse lado.
— Normal, muitos apenas veem a vergonha de um dia ter sido tão fraco a ponto de machucar a si mesmo mas não veem o quão forte foram para poder sair dessa.
— Pesando bem, tens razão.
Foi quando sem querer dei um sorriso tímido.
— Primeira vez que sorri deis de que cheguei aqui, devia fazer isso mais vezes, seu sorriso é realmente lindo.
— Não gosto do meu sorriso, mas agradeço a gentileza.
Ok, eu estava completamente sem graça, peguei o meu celular que estava no balcão; 20:20. Olhei pra ele e automaticamente sorri, nem eu mesma acreditei que havia pensado naquilo. Peguei o dinheiro para pagar o cigarro e as duas doses que eu havia consumido, eu tinha que ir pra casa. Foi quando ele segurou minha mão, tirou a carteira do bolso e disse:
— Deixa! Esse nosso primeiro encontro, se é que posso chamar assim, será por minha conta.
— Primeiro encontro? Terão outros?
— Se depender de mim sim e pelo que vejo serão muitos até o dia que finalmente te pedirei em namoro. - ele havia pagado a conta e estávamos saindo, eu na frente e ele logo atrás.
— Namoro? Você já está planejando me namorar? - sorri, foi inevitável.
— Planejei nossa vida toda juntos a partir do momento que sentados naquelas cadeiras seu olhar veio de encontro ao meu.
Ele segurou meu rosto, pensei que fosse me beijar, não tive reação alguma. Então se aproximando ele me deu um beijo na testa, olhou em meus olhos e perguntou:
— E então, quando será nosso próximo encontro?"
Nos encontramos exatas 18 vezes antes do então pedido. Hoje, ele está aqui, do meu lado,
sorrindo junto comigo, relembrando do dia em que nos conhecemos. — Lari Lacerda
(ultimabatida)